• Douglas Dutra

Entrevista: Coronavírus na Itália e as lições para o Brasil, com Marco Aurélio Amaral Garcia

Segundo o balanço da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, a Itália é o segundo país com mais casos confirmados de coronavírus no mundo, atrás da China. São 28 mil infectados e mais de 2 mil mortos, nos dados desta terça-feira, 17 de março.


Por isso nós conversamos com o médico Piratiniense Marco Aurélio Amaral Garcia, que mora na Itália há quase 4 décadas e está acompanhando de perto o drama da Europa na luta contra o novo coronavírus.


Confira a entrevista completa em áudio ou leia a transcrição abaixo.

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Como a pandemia do Covid-19 alterou a rotina na Itália nesses últimos dias?

Sou filho de Piratini e moro no norte da Itália, exatamente na cidade de Bolonha há 37 anos, onde estudei medicina e cirurgia e me especializei em diagnóstico com ultrassom, e também tenho um master em angiologia e diagnóstico eco-color doppler.


Estou aqui para transmitir a vocês a nossa triste experiência. Estamos vivendo uma emergência sanitária sem precedentes na Itália depois da II Guerra Mundial, causada pelo Covid-19. "Co" para "corona", "vi" para "vírus" e "d" para "disease", em inglês o termo de patologia (ou doença), e "19" para o ano de descobrimento deste vírus.


Este vírus provoca uma infecção pulmonar fulminante, e não tendo ainda uma vacina ou uma terapia farmacológica a disposição, a única solução é a respiração mecânica assistida, e essa necessidade está necessidade fazendo com que nossas UTIs estejam completamente lotadas.


O coronavírus mudou completamente a nossa vida. Aqui estamos vivendo confinados, encerrados em casa porque finalmente chegou essa ordem do governo federal para que as pessoas fiquem confinadas em casa. Única forma de diminuir a possibilidade de contágio desta infecção. Este vírus é um vírus muito agressivo. É um vírus que se transmite com uma facilidade incrível. O país inteiro está parado.


Sair de casa para fazer compras essenciais hoje é só com autorização. Para fazer uma compra em um supermercado tem que ter uma autocertificação dizendo onde mora, horário de saída de casa e onde está indo. Chegando no supermercado, se entra dez pessoas por vez. É uma coisa impensável, uma emergência absoluta. Mas a única saída é evitar os contágios. E é isso que teria que se instaurar o mais rápido possível no Brasil. Fechar tudo. Parar tudo. É alucinante, mas é único remédio: a prevenção.


Como está a situação na sua região?

Como já disse, moro na cidade de Bolonha, que é a capital da região da Emília-Romanha. Aqui a situação é muito crítica. É a segunda região mais afetada do país, com 3522 contagiados, dos quais 197 estão na UTI. Se contagiaram 429 pessoas em um só dia. Tivemos 346 mortos, ou seja, uns 10% das pessoas contagiadas. O contágio e a consequente morte não têm idade.


Se fala sempre e se repete, e todos estão dizendo sempre a mesma coisa: idosos, são só os idosos. Não, aqui não tem idade. Aqui é qualquer idade. Logicamente, os idosos, os diabéticos, os cardiopáticos e os doentes oncológicos são os mais afetados pela emergência do Covid-19. Mas, sendo uma infecção pulmonar de uma gravidade incrível, isso coloca em dura prova qualquer ser humano. Está muito difícil, muito difícil.


A situação na Itália é bastante grave, no Brasil, estamos sentindo os primeiros impactos no cotidiano nos últimos dias. Levando em conta que Itália e Brasil possuem realidades bem diferentes, o que a Itália fez de errado que o Brasil não deve fazer, e o que podemos fazer para evitar que a epidemia se alastre aqui da mesma forma?

A solução única e absoluta é o isolamento. As pessoas têm que estar isoladas, têm que respeitar a distância de segurança entre uma pessoa e outra, que é de no mínimo de um metro. Esse vírus se transmite com gotas de saliva. Isso já é sabido e não precisa repetir porque todos já sabem: manter a devida distância, lavar as mãos com sabão, manter ambiente onde se vive o mais desinfetado possível, evitar contato humano.


Idosos e crianças juntos não é uma boa ideia, porque normalmente, a criança é um portador sadio, não contrai a infecção na maior parte dos casos, mas ele transmite com extrema facilidade, e no idoso contagiado já sabemos qual é consequência.


A única medicina é a preventiva. Por favor, coloquem na cabeça a importância do isolamento. A coisa ideal é o confinamento em casa, não receber visitas.


Por que a Itália se encontra nessa situação? Porque é um país aberto. Os aeroportos foram fechados de forma muito tardia, não puseram medidas de segurança preventivas. Foi tudo feito quando era tarde demais, estamos pagando esse preço tão alto.


Em 20 dias a partir do primeiro caso, a Itália detectou 20 casos de coronavírus. No Brasil, em 20 dias foram detectados 234 casos nesses mesmos 20 dias, um número bem maior, mesmo se considerando a escala. Na sua leitura como médico, isso significa, necessariamente, que a situação no Brasil vai ser mais grave?

A resposta é: não necessariamente, mas, vista a densa população, cerca de 220 milhões de habitantes, o dano pode ser incalculável. Pode ser um dano incrível. E penso que o país inteiro está transcurando completamente, está minimizando o risco que está correndo, a emergência sanitária que pode encontrar. Não sei como pode ser, mas penso que se usarmos as experiências dos chineses e a experiências da Itália, pode ser um dano incalculável, com certeza.


Na sua visão, como observador internacional, as autoridades no Brasil estão no caminho correto?

Eu diria que não, porque até agora não vi medidas de restrição e confinamento em lugar nenhum no país. O único estado foi o Distrito Federal que tomou as mínimas providências, mas essas mínimas providências têm que ser aumentadas a algo muito radical.


Penso que, pela mentalidade do povo, por aquilo que a gente vê, pelo aprendizado que a tem vivendo no exterior, vai ser muito difícil que o povo brasileiro se conscientize e consiga, de alguma maneira, colocar a prática a devida prevenção.


O que nós, pessoas comuns, devemos fazer para evitar o contágio?

É inútil repetir o que se poderia fazer. As pessoas já têm conhecimento da prevenção. As pessoas já sabem tudo, a informação é muito clara, nítida, só que não se percebe a real gravidade de assistir do ponto de vista respiratório mecânico uma quantidade enorme de pessoas para uma disponibilidade de UTIs mínima. É essa a real emergência, não tem cura. Então a prevenção é a única solução. Não se pode remediar, não tem jeito. Não existe o fármaco na praça.


Piratini, te fecha em casa, te isola. Corta os contatos externos. Por favor, sigam a nossa triste experiência. Se fechem em casa, se protejam. E que o bom Deus esteja conosco. Um grande abraço a essa gente querida. Ficamos aqui na esperança de dias melhores. Desde Bolonha, Itália, Marco Aurélio Amaral Garcia. Filho de Piratini.

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