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Museu Histórico Farroupilha receberá acervo de mil peças

Na primeira Capital da República Rio-Grandense, Piratini, uma instituição de mais de seis décadas guarda um acervo que ajuda a entender a construção da identidade gaúcha: o Museu Histórico Farroupilha. O museu já completou 66 anos e sua diretora não poderia prever que um contato mediado pelas redes sociais resultaria numa doação de peso para ampliar este acervo, que conta atualmente com cerca de 600 peças. Um gaúcho aficionado pela saga farroupilha se colocava à disposição para doar materiais da mais alta cotação histórica: 988 peças, resultado de mais de 20 anos de colecionismo.

Detalhes da empunhadura de um briquet naval (Período Napoleônico, utilizado no Período Farroupilha) e de uma espada de infantaria produzida para as comemorações do Centenário da Revolução Farroupilha, em 1935. Foto: Rafael Varela

Desde maio de 2019, Volnir Júnior dos Santos, gaúcho de São Francisco de Paula, conhecido nas redes sociais como Tche Voni, sinalizava o desejo de doar o acervo para o Museu Farroupilha. Foi quando a diretora do Museu, Francieli Domingues, passou a estreitar contato com o empresário do ramo hoteleiro, que vive há 19 anos em Natal, no Rio Grande do Norte.



A motivação para doar o acervo é transcendente, explica Volnir: “tudo começou com o propósito espiritual e pessoal em aprender sobre a República Rio-Grandense. Nunca acreditei que foi só pelo preço do charque [os altos impostos sobre o charque como pano de fundo para motivar a Revolução Farroupilha (1835-1845)]. Em 11 de setembro de 2019, aos 183 anos da Proclamação da República Rio-Grandense, após um sonho com Miguel Arcanjo, decidi doar o acervo, ao invés de construir um museu em Gramado.” Questionado sobre a escolha do museu que receberá a coleção, Volnir é enfático: “o Museu Farrapo é a pedra fundamental da República Rio-Grandense para as futuras gerações.”  


Parte do acervo é constituída por grande quantidade de livros técnicos e/ou históricos, referentes ao tema Revolução Farroupilha e cultura gaúcha. Foto: Rafael Varela

Ao ter conhecimento da possível doação, a secretária de Estado da cultura, Beatriz Araujo, manteve contatos telefônicos com o empresário. O colecionador esperou até 11 de setembro – mesma data em que foi proclamada, em 1836, a República Rio-Grandense – para registrar em cartório e enviar o documento ratificando sua decisão. Beatriz e Francieli viajaram para conhecer o doador e o referido acervo, o que aconteceu em outubro. A dupla percorreu mais de quatro mil quilômetros para desembarcar em Natal.


Lá, foram recebidas por um gaúcho com pilcha completa, que as levou ao ambiente de sua residência, onde os 29 volumes que acondicionavam a coleção, totalizando 401 quilos, estavam enfileirados. "Foi um momento de grande alegria e emoção, uma vez que estávamos diante de peças históricas de tamanha relevância, que mudariam para sempre o Museu Histórico Farroupilha de Piratini, bem como contribuiriam para aprofundar o conhecimento acerca da saga farrapa", recorda Beatriz Araujo.


Assessor especial de Memória e Patrimônio da Sedac, Eduardo Hahn, manuseia espada do período farrapo. Foto: Rafael Varela

Após a consolidação das tratativas, a secretária passou a envidar esforços para trasladar o acervo até Porto Alegre, uma vez que - antes de ser levado para Piratini - o mesmo deve passar por catalogação e ser adicionado ao patrimônio do Estado. Para isso, contou com a intermediação do deputado federal Ronaldo Santini (PTB-RS), o qual viabilizou o transporte aéreo junto à Força Aérea Brasileira (FAB) e terrestre por meio do Exército Brasileiro, oportunizando que dois meses depois a coleção chegasse ao Rio Grande do Sul. 


Francieli lembra que o valor das peças e a nobreza no gesto do colecionador despertou muita emoção na equipe. A coleção é composta por itens de valor museológico arquivístico e bibliográfico incalculável. “São centenas de livros de grande qualidade técnica, alguns deles raros e artefatos que variam de balas de canhão, armamento de época e outras raridades, como as moedas com a cunhagem da República Rio-Grandense e o passaporte que dava acesso à república farrapa durante o período da Revolução Farroupilha”. Francieli vai além: “trata-se de relíquia cultural, patrimônio de todos os gaúchos. Uma doação altruísta que configura uma nova história para o Museu Farroupilha, agora assinada a próprio punho pelos Farrapos. É a parte da República Rio-Grandense que retorna a sua primeira Capital.”

Álbum de figurinhas do Centenário da Revolução Farroupilha, lançado em 1945, durante a Exposição Agrícola e Industrial, que ocorreu na área do atual Parque Farroupilha. Foto: Solange Brum

Corpo técnico

A fase atual é de catalogação. O trabalho minucioso é realizado por técnicos da Diretoria de Memória e Patrimônio da Secretaria da Cultura. “A ideia é catalogar todas as peças. O doador nos passou uma lista com a descrição dos materiais. Desta forma, pretendemos abrir uma caixa de cada vez, identificar cada item a partir da lista encaminhada, fotografar, numerar as peças e preencher uma planilha, já elaborada pelos técnicos da secretaria. Após a catalogação, as peças serão devidamente acondicionadas, conforme as diretrizes dos conservadores e, novamente, encaixotadas para, posteriormente, serem encaminhadas ao Museu Farroupilha”, explica Eduardo Hahn, assessor especial de Memória e Patrimônio da Sedac.  


Enquanto é feita a catalogação do acervo em Porto Alegre, são realizadas melhorias físicas na reserva técnica do Museu, em Piratini, que impactarão no mobiliário e na segurança. Também está previsto novo mobiliário expositivo. O objetivo é qualificar a guarda e a exposição dos objetos – ações que serão executadas com recursos provenientes de emenda parlamentar estadual, apresentada pelo deputado Luiz Henrique Viana (PSDB) em 2019, no valor de R$ 100 mil. A verba será utilizada na compra de mobiliário e mostruários para acomodar o novo acervo, bem como na instalação de sistema de alarme.


Assessor especial de Memória e Patrimônio da Sedac, Eduardo Hahn, e equipe do departamento, coordenam o trabalho de catalogação do acervo. Foto: Rafael Varela

O transporte do acervo para Piratini só será realizado após a conclusão das melhorias físicas no museu. A denominação da coleção já foi escolhida e presta homenagem ao colecionador Volnir: Coleção TcheVoni - perfil público do doador. A previsão de exibição pública das peças é setembro de 2020, ocasião que coincide com o retorno das obras pictóricas de grandes dimensões, pertencentes ao Museu, que estão sendo restauradas pelo curso de Conservação e Restauro de Bens Culturais Móveis da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) desde 2019 – a partir de Acordo de Cooperação Técnico-Científica firmado entre a Sedac e a universidade.


"Após alguns anos de trabalho, em 2011, na condição de produtora cultural, concluí o projeto que possibilitou a restauração completa do Museu Histórico Farroupilha de Piratini. Chegando à Sedac como secretária, meu primeiro ofício foi à UFPel, solicitando apoio para a restauração de duas obras de arte daquele Museu, as quais estavam aguardando restauro num dos torreões do MARGS há muitos anos e sem qualquer perspectiva de conclusão. Agora, com esta doação extraordinária e a qualificação das instalações do Museu para recebê-la, penso que encerro um trabalho de mais de uma década, que por vezes me deu muita preocupação, mas também muitas alegrias. Nestas horas a gente percebe que todo o esforço é recompensado. Piratini agora passa a ser uma referência para pesquisadores e pessoas interessadas em conhecer um pouco mais da nossa história", comemora a secretária da Cultura.


O museu

Fundado em 1953 pelo Estado do Rio Grande do Sul, o Museu Histórico Farroupilha é considerado um pilar fundamental para construção da identidade gaúcha.  Seu acervo é um dos principais narradores do episódio divisor de águas da história do Estado, a Guerra dos Farrapos, e a formação da República Rio-Grandense. Configura-se em uma matriz para pesquisas de valor histórico e científico e em equipamento cultural e turístico de Piratini.


Por Rafael Varela/ASCOM SEDAC

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